sexta-feira, 17 de junho de 2022

 Tem um choro retido na garganta pelas interpéries da vida, do tempo, da idade que chega, da solidão que persegue, do afeto que se esvai.

Te um não se de que desesperança que o vento insiste em colocar  em mim, por mim e sem mim.

Tem um vazio que percorre rios e mares, estradas tortuosas, casas e sotãos.

Tem um ninguém que caminha para longe, que permitiu a partida, que alentou o vazio e escapou por entre idas e vindas.

Cada pedaço do tempo, leva o que não foi meu, desfaz o não feito, impede o prosseguir 

São tantas barreiras na vida, que fica por  vezes intransponível ter sonhos, prender o que se imaginou ser simples.

Não tenho como responder as questões ou perguntas, não tenho como combater um combate insano, dolorido, sufocante.

A vida que não é justa e tem que seguir por caminhos tortuosos, sem sorrisos, sem perdão, sem mãos estendidas.

Corro para o tempo de antes, que deixou em mim a menina alegre, a bailarina na ponta dos pés, o rodopiar  suave de um gosto de quero mais. Uma menina doce, uma menina que só queria ganhar o mundo, mas não sabia que seria sofrido. Talvez essa menina não tenha feito boas escolhas, não tenha parado na soleira da porta da casa da praça, para pensar o trajeto.

Apenas foi.

Este foi, trouxe danos, causou sofrimentos e muitas perdas. Hoje tem saudades, lonjuras, muita lonjura, do pai, do amigo, da amiga-irmã, da mesa cheia de gente, da casa que não fechava a porta, dos olhares profundos e ternos.

Hoje tem a vontade de sentar no portão e esperar o carteiro passar e entregar a carta, conversar com a vizinha, brincar na rua, namorar na praça.

Hoje, quando o peito está a explodir de dor, tem a vontade do baile do clube, da festa de 15 anos , da paquera no bar do edifício. Carregar a vida, não tem sido fácil, e fazer isso sozinha pesa mais ainda . Difícil quem possa compartilhar do que cabe em nós. Difícil olhos nos olhos, nenhum receio, nenhum medo de ser um com o outro.

Vida que não segue. Estanca 

Gislaine Zago

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