A vida na minha época de adolescencia era feita a pé, ninguém tinha o habito de ir de carro aos lugares, todo mundo caminhava, era pra escola, pra educação fisíca, pro inglês, pro ballet, estudar na casa das amigas, ir ao baile, ao aniversario,
O máximo era voltar pra casa com o namorado, andando , mas como eu morava na praça, com os clubes todos ali, não tinha muito o que andar até em casa, era horrível.
Mas, quando a festa era na casa dos amigos era sempre muito interessante pensar com quem iria voltar, Seria com aquele que se paquerava e que finalmente te tiraria pra dançar ao som do Canzone Per Te, e depois te traria pra casa ?
Seria o sonho desejado,
Então se poderia trocar fotos, aquelas, 3x4, que se tinham sempre na carteira e que era igual a da caderneta da escola,
A foto que se ficava por horas olhando e enamorando, que deixávamos em baixo do travesseiro para sonhar com aquele rosto, com aquele beijo,
As mãos dadas no cinema, na primeira sessão é lógico, depois um bauru, e um sorvete, e se estava plainando no ar de amores.
Quanto desejo, quanta sintonia, quanta ilusão, e quanto sentimento cabia em tanta simplicidade de gostar,
Não era preciso sofisticação, apenas o essencial para se amar, para se envolver, para estar completamente e generosamente apaixonada.
Os escritos no diário, nos cadernos de recordações, nos questionários das amigas, nas capas dos discos, tudo deveria ter a marca do namoro, e era tão bom.
O tempo vai nos deixando mais insolentes, mais complexos, mais exigentes, e sozinhos,
O tempo, este ingrato , que nos desfaz as ilusões e os sentimentos mais puros e honestos.
O tempo, que passa e leva de nós a juventude, os discos, os livros, e as marcas dos amores,
O tempo, ele é implacável , mas nem sempre justo,
Ainda ouço Canzone per Te e me lembro daquele aniversario e daquele meu par na dança.
Suaves memorias
Gislaine Zago,
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